segunda-feira, 12 de março de 2018

Uma grande evolução foi perceber que somos animais feitos para a ação. Somos, nós homo sapiens, assim como qualquer ser biológico, sistemas orgânicos. E isso significa que somos um sistema movido por demanda. Ou seja, se você não demanda do seu corpo, o seu corpo não se adapta. Se você não fizer força, você não ficará forte. Se você não mexer o seu antebraço para malhar o seu bíceps, você não terá um bíceps forte. Ou, por oposição, todos temos experiência com aquele conhecido que engessou a perna e, muitas vezes pouco tempo depois, surgem com a perna mais fina, a musculatura da perna visivelmente atrofiada.

É simples assim. Se você demandar do seu corpo força, ele ficará forte. Espere e verá. E, no entanto, invertendo essa equação, ou seja, se esforçando para ficar forte em academias, para então, forte, parecer forte a quem quer que nos veja, parece não fazer diferença para o músculo. O organismoa se vira para que o músculo aumente de tamanho, capacidade, etc, para responder a demanda. Sim, para o músculo, tanto faz. Ele é cego. Não questiona. Essa abordagem só não parece ter um adesão tão boa, me parece. Como uma pessoa que dizem que são católicas, mas não são praticantes. Tirando alguns fanáticos acadêmicos, a maioria até concorda com a metafísica, mas não pratica.

E, isso não muda o fato de que, se você demandar o seu músculo responde, se desenvolve. E o que nos demanda mais, do que o desconforto? Ou, por oposição, haverá algo que nos atrofie mais do que o conforto?

Daí advém que devemos sempre nos policiar em nossos confortos e escolher os desconfortos a que forçosamente deveremos nos lançar! Para nos matermos como sistemas que não estão em direção a atrofia! Para nos mantermos em eterno desenvolvimento. Como um desses peixes que, se parar de nadar, morre. Precisamos obviamente, e me surpreende como o óbvio se disfarça, nos manter sempre sob constante demanda.

As pessoas podem ser demandadas ao acaso, de forma responsiva. Ou podem surfar essa onda. Aproveitar esse desequilíbrio a favor de sim mesmas, e se envolver em atividades construtivas, criativas ou não, que lhe ofereçam demandas em quantidade e harmonia. Essa é a base do pensamento construtivo que abraço. Qual a meta? A que você quiser. Mas destrave seu movimento. Abrace desconfortos. Fuja de confortos. E nunca, nada, seja de um lado, seja do outro, em excesso. Afinal, se somos um sistema orgânico, somos por definição compostos de várias partes que colaboram para o todo, para um movimento qualquer ele seja. Todas as partes devem colaborar conforme projeto básico. Portanto, todas as partes precisam se manter em estado operacional. Todas as partes que compõe o ser humano. A moles e as duras.
Em Lolita de Nabokov, o protagonista comenta: "Conquanto jamais pudesse acostumar-me ao constante estado de ansiedade em que vivem as pessoas culpadas..."

Esse pensamento, como uma nota musical que pode se harmonizar em tantas diferentes canções, reverberou como um sino no meu subconsciente desperto. Iluminava com brilho de constatação, que eu era viciado em ansiedade. Se bem que isso, eu já sabia. Me faltava entender de onde vinha um certo fardo de culpas que eu me sentia colecionar sem uma razão clara aparente... Isso me parecia esclarecer parte do meu peso atômico natural.

Sim, eu poderia facilmente ser incluido na tabela periódica, em algum grupo que relacionasse metais pesados, porém flexíveis. Um tipo de personagem  de ficção científica mesmo - o vilão de Exterminador do Futuro 2.. Não sua maldade, óbvio. Sem ignorar minhas próprias vilanias, pois todos somos humanos.

Fato era que ele se impressionava em se ver tão viciado em ANSIEDADE. Talvez fosse a consequência de uma infância em que sempre fora estimulado por seu pai a enfrentar o inimigo, e o inimigo sempre foi claro pra mim. Meu inimigo era o medo. E eu era muito medroso. Não sei explicar. Eu sempre fui muito medroso.

Sorte eu dei de me viciar em ansiedade. Pois nada me deixava mais ansioso do que ser forçado, na pedagogia marcial do meu pai, a encarar meu medo. E hoje vejo que os esportes e atividades que eu gostei de fazer me metiam bastante medo. Medo o suficiente para me ocuparem por muito tempo no exercício da dominação daquele medo. De forma persistente, gradual, dedicada, até obter uma sensação de conforto. Até quando já não me metiam mais medo. Adrenalina, dizem alguns. Eu tiro adrenalina do enfrentamento constante dos meus medos. No medo que eu tenho do mar, na culpa que sinto quando não cumpro uma tarefa, e por isso, me entupo de tarefas... E por ai vai - desenvolver mais.