quinta-feira, 8 de novembro de 2018

50 anos


50 anos.

Em 5 minutos... A contar de agora.

Não sei nem o que falar.

Não por falta do que dizer.

Mas pela dificuldade de co-municar.

É muita informação. Muita! Tudo ao mesmotempo.

50 anos...

Não dá nem pra começar a contar.

Já se sente a tangência do fim. Já se o vislumbra como claridade que alumeia a manhã.

Mas ainda se quer lutar. E com mais garra. Com mais gana.

50 anos.

Em 2 minutos. A contar de agora.

49 anos, em uns poucos tantos causos

e amigos pra contar.

Alguns bons.

Em 1 minuto,

e se começa o início de no-vo.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Ventos frios ensinam a se aquecer. Mais que isso, se aprende a gerar calor pela pura determinação, pelo empenho da energia, e foco, na tarefa a frente. Se exigindo ignorar, ou mesmo ignorando de fato, focado, o frio intenso.

Por vezes experimentei uma sensação de prazer e satisfação com esse frio ventoso, agulhado, quando voltava de pé, ainda de sunga e peito nu, na caçamba do reboque correndo pela noite tempestuosa da vila de Arraial. Quicando pela ruas de paralelepípedos com seus quebra-molas obesos, barrigudos mas não menos efetivos. Passando pela pracinha na frente do Saint Tropez, com seu movimento de jovens aproveitando atraentemente a noite, com o vento leste gelado do inverno do Arraial soprando e espetando, com sua chuva fina e ventada. Cidade de portas batendo. De dunas de areia. E frio cinza no inverno. E o frio do ar se batia com uma usina de calor que minha satisfação comandava.

Eu adorava aquela sensação de estar na beirada do mundo, onde ventos e mares dão rugidos. Sei que é um exagero descrever Arraial assim, mas não tanto. Enquanto o Amyr navegava sozinho pelos Roaring Forties, e passava 2 anos entre 2 pólos, eu modestamente encarava o reboque quicando com garrafas de ar comprimido, cintos de chumbo saltando e dançando a cada quebra-mola. Nós, aventureiros, somo assim: não sentimos frio. Mas, esse olhar prosaico convivia de fato com experiências incríveis, como quando mergulhei atrás de uma jubarte que acabara de bufar próximo a nossa traineira, ancorada por dentro da Ilha dos Porcos.

Mas voltemos ao frio e sua colaboração na geração do calor.

Claro, isso dura pouco tempo. Varia entre mais e menos, mas tem seu limite. Aí, a realidade bate na sua vaidade, seu corpo começa a tremer descontroladamente, e você pode entrar em choque. A tal da hipotermia. Nada como um nome técnico e alguns sintomas para afiar a lâmina de uma vaga noção: é possível morrer de frio.

Hoje vim fazer companhia para minha mãe. Está com 77 anos e complicações.
Venho refletindo sobre o cuidar da minha mãe.
Hoje vim determinado a me manter disponível, mas a focar no estudo do meu MBA Online em Gestão Financeira. Estou muito atrás nos estudos. Preciso me recuperar. Preciso de disciplina para estudar sem me deixar perturbar pela realidade. Luta inglória, eu diria rindo.
Mas, ao entrar, e ver minha mãe velhinha lendo o seu jornalzinho de todo dia, com o braço esquerdo engessado, e uma luva de borracha na mão direita "pra não sujar os dedos - jornal é muito sujo!", fui carregado para outra ação: sentei, puxei meu e-Reader Kindle, e comecei a ler em voz alta para ela, o primeiro capítulo de Helena, de Machado de Assis.
Ela adorou!
Agora, vou tentar estudar.

PS: Anteontem tentei explicar o que era o Kindle. E hoje, mais uma vez, ela me perguntou o que era a Internet.

domingo, 24 de junho de 2018

Ah, a antecipação de fazer 50 anos... Espasmos de reflexão têm me atingido.

Essa semana mesmo, numa consulta a uma geriatra em que levei minha mãe, a avaliação foi: "sua mãe tem um quadro psicótico claro!". Meu irmão? Omisso. Isso uma semana após uma bronca minha, reclamando da omissão dele! E o que ele faz? Nada. Não se apresentou ainda. Não é com ele. Permanece omisso, escondido debaixo do manto mágico das "justificativas justas de um cavalheiro da ordem da verdade absoluta". Sentiria vergonha se isso não me irritasse tanto. Mas estou amadurecendo, como disse no início. Aprendi que é mais prático aceitar que 80% das pessoas (sim, sou um otimista!) são inimputáveis e com isso tirá-las da frente: se não atrapalharem, já estão contribuindo. Estou quase lá com meu irmão. Só falta esperar se desintegrar aquele último grão de respeito que eu tinha porque ele é meu irmão mais velho. Falta bem pouco.

Meu pai? Fará 80 anos no próximo mês: surdo de um ouvido, com a coluna sequelada, tratado de um  câncer na bexiga, cardíaco e começando a esquecer algumas palavras e nomes no meio de cada frase. Bem, esse seria o quadro normal dele. No momento, entretanto, está tratando uma depressão que o impede de apreciar melhor a vida com essas condições normais. Omiti propositalmente a questão de suas experiências para tratar um quadro importante de hemorroidas porque fico desconfortável com o tema. Como fiquei, também, aos 16 anos, quando fiz companhia para meu avô em uma de suas internações hospitalares e ele se sujou todo no banheiro. Após um silêncio de provável embaraço para ele, não teve jeito senão pedir, constrangido, a seu neto, que buscasse um enfermeiro para vir limpá-lo, tão fraco estava.

Acredito que me não mencionei que meu pai não fala mais com meu irmão, e por extensão, com ninguém da família dele. Nem com a nora, nem com nenhum dos 3 netos, filhos do meu irmão. Há uns 3 ou 4 anos já. Cansou de se sentir desrespeitado pelo meu irmão. Demorei a entender a causa de uma medida tão extrema e achava, no início, que eram apenas dois bicudos com temperamento forte. Mas estou começando a entender meu pai, infelizmente.

De minha parte, eu estou muito bem de saúde. Mas estou desempregado num país que enfrenta sua pior crise econômica que se tem lembrança. Isso incomoda, não restam dúvidas. Moro numa cidade castigada pela violência e pela corrupção do Estado. O clima de desamparo enfrenta a resistência apenas das maravilhas da geografia da cidade. Em uma cidade mais cinza seria pior. Aqui se vai levando.

Minha filha de 17 anos, redime todo esse quadro geral. Mesmo com os desafios naturais da adolescência, dando seus tropeços aqui ou acolá, ela quer de verdade salvar o mundo! E isso é bom! De fato, me basta!

PS: Ontem perdi as bodas de prata de um amigo querido de colégio. Não estava com espírito para celebrar. Uma pena.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Cinquentenário

O Tempo passa e eu vou me perdendo de mim mesmo
Vou vendo minhas pegadas e elas são minhas
mas não parecem estar onde eu pensei que estariam
Onde eu fui parar...
Pra onde estou indo?

E vendo meu caminho, me perco de mim mesmo.
Não sei pra onde vou. Não sei como chegar.

Tenho apenas as coisas que carrego comigo
minha filha
minhas coisas
meus amores e suas dores

Minha vida me leva, mais forte que eu, por caminhos que eu não sabia.
Passando o tempo, assentando a mão, colecionando vida,
Vou aprendendo a aceitar o tropeço, a ganhar equilíbrio
A achar que velejo a força do vento
A onda do mar
A secura do tempo

E tropeço de novo. Despenco de novo.
Não sei se caminho,
ou se despenco.
Sei que vivo.
Parece ser isso.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Uma grande evolução foi perceber que somos animais feitos para a ação. Somos, nós homo sapiens, assim como qualquer ser biológico, sistemas orgânicos. E isso significa que somos um sistema movido por demanda. Ou seja, se você não demanda do seu corpo, o seu corpo não se adapta. Se você não fizer força, você não ficará forte. Se você não mexer o seu antebraço para malhar o seu bíceps, você não terá um bíceps forte. Ou, por oposição, todos temos experiência com aquele conhecido que engessou a perna e, muitas vezes pouco tempo depois, surgem com a perna mais fina, a musculatura da perna visivelmente atrofiada.

É simples assim. Se você demandar do seu corpo força, ele ficará forte. Espere e verá. E, no entanto, invertendo essa equação, ou seja, se esforçando para ficar forte em academias, para então, forte, parecer forte a quem quer que nos veja, parece não fazer diferença para o músculo. O organismoa se vira para que o músculo aumente de tamanho, capacidade, etc, para responder a demanda. Sim, para o músculo, tanto faz. Ele é cego. Não questiona. Essa abordagem só não parece ter um adesão tão boa, me parece. Como uma pessoa que dizem que são católicas, mas não são praticantes. Tirando alguns fanáticos acadêmicos, a maioria até concorda com a metafísica, mas não pratica.

E, isso não muda o fato de que, se você demandar o seu músculo responde, se desenvolve. E o que nos demanda mais, do que o desconforto? Ou, por oposição, haverá algo que nos atrofie mais do que o conforto?

Daí advém que devemos sempre nos policiar em nossos confortos e escolher os desconfortos a que forçosamente deveremos nos lançar! Para nos matermos como sistemas que não estão em direção a atrofia! Para nos mantermos em eterno desenvolvimento. Como um desses peixes que, se parar de nadar, morre. Precisamos obviamente, e me surpreende como o óbvio se disfarça, nos manter sempre sob constante demanda.

As pessoas podem ser demandadas ao acaso, de forma responsiva. Ou podem surfar essa onda. Aproveitar esse desequilíbrio a favor de sim mesmas, e se envolver em atividades construtivas, criativas ou não, que lhe ofereçam demandas em quantidade e harmonia. Essa é a base do pensamento construtivo que abraço. Qual a meta? A que você quiser. Mas destrave seu movimento. Abrace desconfortos. Fuja de confortos. E nunca, nada, seja de um lado, seja do outro, em excesso. Afinal, se somos um sistema orgânico, somos por definição compostos de várias partes que colaboram para o todo, para um movimento qualquer ele seja. Todas as partes devem colaborar conforme projeto básico. Portanto, todas as partes precisam se manter em estado operacional. Todas as partes que compõe o ser humano. A moles e as duras.
Em Lolita de Nabokov, o protagonista comenta: "Conquanto jamais pudesse acostumar-me ao constante estado de ansiedade em que vivem as pessoas culpadas..."

Esse pensamento, como uma nota musical que pode se harmonizar em tantas diferentes canções, reverberou como um sino no meu subconsciente desperto. Iluminava com brilho de constatação, que eu era viciado em ansiedade. Se bem que isso, eu já sabia. Me faltava entender de onde vinha um certo fardo de culpas que eu me sentia colecionar sem uma razão clara aparente... Isso me parecia esclarecer parte do meu peso atômico natural.

Sim, eu poderia facilmente ser incluido na tabela periódica, em algum grupo que relacionasse metais pesados, porém flexíveis. Um tipo de personagem  de ficção científica mesmo - o vilão de Exterminador do Futuro 2.. Não sua maldade, óbvio. Sem ignorar minhas próprias vilanias, pois todos somos humanos.

Fato era que ele se impressionava em se ver tão viciado em ANSIEDADE. Talvez fosse a consequência de uma infância em que sempre fora estimulado por seu pai a enfrentar o inimigo, e o inimigo sempre foi claro pra mim. Meu inimigo era o medo. E eu era muito medroso. Não sei explicar. Eu sempre fui muito medroso.

Sorte eu dei de me viciar em ansiedade. Pois nada me deixava mais ansioso do que ser forçado, na pedagogia marcial do meu pai, a encarar meu medo. E hoje vejo que os esportes e atividades que eu gostei de fazer me metiam bastante medo. Medo o suficiente para me ocuparem por muito tempo no exercício da dominação daquele medo. De forma persistente, gradual, dedicada, até obter uma sensação de conforto. Até quando já não me metiam mais medo. Adrenalina, dizem alguns. Eu tiro adrenalina do enfrentamento constante dos meus medos. No medo que eu tenho do mar, na culpa que sinto quando não cumpro uma tarefa, e por isso, me entupo de tarefas... E por ai vai - desenvolver mais.