Lugar de Fala vs. Ponto de Vista
Estava vendo uma entrevista da filha de um amigo querido. Moça artista, visivelmente inteligente e perspicaz como o pai, e totalmente lançada na vida como artista. Claramente estudada e interessada e aplicada nas coisas que faz, gosta e acredita. E super contemporânea, até onde me ocorre perceber a realidade mais recente a minha volta.
E falando sobre ações artísticas com pretensão de contribuir no incessante trabalho da cultura em perfurar e transformar os costumes, para que uma nova cultura possa vagarosamente emergir de si mesma, ela repetia uma expressão que já vem sendo trabalhada com o grande público há algum tempo: Lugar de Fala.
Eu sou de outra geração. Tenho 54 e acho que já posso começar a dizer isso sem constrangimento ou pretensão. O fato é que esse é um termo recente. No meu tempo diríamos PONTO DE VISTA!
A Vista me expande. Me convida a olhar além do meu espaço imediato. Me exige cuidado para não interpretar com muita certeza o que vejo, a reconhecer a minha limitação como intérprete da realidade.
O Lugar me limita. Me delineia, me confina. Me impede de ir além, de alcançar o outro. Mas confere a seu dono um poder ilimitado: no meu lugar, mando eu. Há uma imposição a audiência externa que deve se submeter a verdade do dono do lugar.
São paradigmas de convivência bem distintos!
E o novo paradigma se manifesta na realidade que eu observo: na busca por uma sociedade mais inclusiva e portanto mais harmônica entre todos, promove-se uma convivência menos tolerante, cada um mais aguerrido em defender seu lugar, sua identidade em relação a um todo normalizante.
Acho um equívoco um caminho que passe pelo aumento da intolerância na sociedade. Mas é por onde caminhamos no momento.
E esse é apenas o meu ponto de vista.