quinta-feira, 19 de julho de 2018

Ventos frios ensinam a se aquecer. Mais que isso, se aprende a gerar calor pela pura determinação, pelo empenho da energia, e foco, na tarefa a frente. Se exigindo ignorar, ou mesmo ignorando de fato, focado, o frio intenso.

Por vezes experimentei uma sensação de prazer e satisfação com esse frio ventoso, agulhado, quando voltava de pé, ainda de sunga e peito nu, na caçamba do reboque correndo pela noite tempestuosa da vila de Arraial. Quicando pela ruas de paralelepípedos com seus quebra-molas obesos, barrigudos mas não menos efetivos. Passando pela pracinha na frente do Saint Tropez, com seu movimento de jovens aproveitando atraentemente a noite, com o vento leste gelado do inverno do Arraial soprando e espetando, com sua chuva fina e ventada. Cidade de portas batendo. De dunas de areia. E frio cinza no inverno. E o frio do ar se batia com uma usina de calor que minha satisfação comandava.

Eu adorava aquela sensação de estar na beirada do mundo, onde ventos e mares dão rugidos. Sei que é um exagero descrever Arraial assim, mas não tanto. Enquanto o Amyr navegava sozinho pelos Roaring Forties, e passava 2 anos entre 2 pólos, eu modestamente encarava o reboque quicando com garrafas de ar comprimido, cintos de chumbo saltando e dançando a cada quebra-mola. Nós, aventureiros, somo assim: não sentimos frio. Mas, esse olhar prosaico convivia de fato com experiências incríveis, como quando mergulhei atrás de uma jubarte que acabara de bufar próximo a nossa traineira, ancorada por dentro da Ilha dos Porcos.

Mas voltemos ao frio e sua colaboração na geração do calor.

Claro, isso dura pouco tempo. Varia entre mais e menos, mas tem seu limite. Aí, a realidade bate na sua vaidade, seu corpo começa a tremer descontroladamente, e você pode entrar em choque. A tal da hipotermia. Nada como um nome técnico e alguns sintomas para afiar a lâmina de uma vaga noção: é possível morrer de frio.

Hoje vim fazer companhia para minha mãe. Está com 77 anos e complicações.
Venho refletindo sobre o cuidar da minha mãe.
Hoje vim determinado a me manter disponível, mas a focar no estudo do meu MBA Online em Gestão Financeira. Estou muito atrás nos estudos. Preciso me recuperar. Preciso de disciplina para estudar sem me deixar perturbar pela realidade. Luta inglória, eu diria rindo.
Mas, ao entrar, e ver minha mãe velhinha lendo o seu jornalzinho de todo dia, com o braço esquerdo engessado, e uma luva de borracha na mão direita "pra não sujar os dedos - jornal é muito sujo!", fui carregado para outra ação: sentei, puxei meu e-Reader Kindle, e comecei a ler em voz alta para ela, o primeiro capítulo de Helena, de Machado de Assis.
Ela adorou!
Agora, vou tentar estudar.

PS: Anteontem tentei explicar o que era o Kindle. E hoje, mais uma vez, ela me perguntou o que era a Internet.