O mercado, em sua coletividade abstrata, defeca para a ética e a integridade moral.
Sempre foi assim, sempre será.
Chamar de "boa esperança" o resultado de ontem (arquivamento do processo de investigação do Temer no Congresso), é para mim uma piada de mal gosto. Se o Estado é um ente falho e ineficiente, assim também o é o Mercado. E quem estiver do lado de qualquer um desses dois, Estado ou Mercado, estará se enganando. São ambos instrumentos imperfeitos que precisam de controle e equilíbrio no uso. Vida que segue.
...
Fiquei muito chateado ontem. O silêncio das ruas me constrange. Tenho vergonha mais do que nunca pelo meu país. Triste capítulo de nossa história esse em que homens de bem justificam uma imoralidade por conta de seu conforto. Eu estou há 16 anos me esforçando para ensinar minha filha que a honestidade é um conceito absoluto em si, e que não pode estar associado as suas consequências. Pense nas consequências antes de fazer algo que vai contra seu próprio melhor juízo. Depois que a besteira está feita, assuma. Independente se isso vai lhe trazer o melhor ou o pior dos caminhos. No longo prazo, o único caminho que vale a pena é o da integridade. No entanto, vejo meu país repetir a busca de atalhos. Que os pústulas do congresso, com seus rabos presos e imundos não vejam isso, tudo bem. Mas que tantos amigos meus defendam esse mesmo "pragmatismo", me desanima. No mínimo, estamos desperdiçando o elevado custo que pagamos até agora pela chance de transformar uma cultura de roubo e impunidade.
Tantos falam do custo Brasil, arrotando sua indignação por nossas ineficiências, mas não enxergam que essa corrupção é justamente o que mais eleva o nosso custo de agência! Burros.
Não estou falando do Congo. Estou falando de cada um nós aqui. Mas, enfim, deixa pra lá.
bom dia a todos.
sábado, 5 de agosto de 2017
sexta-feira, 28 de julho de 2017
Quanto caminho percorrido, pensara ele com um orgulho constrangido. Sim, porque se orgulhava de algo que sabia ser trivial para tantos, e ainda hoje lhe era custoso. Tinha dúvidas se conseguiria mudar, e se não cairá em tentação novamente. Seu pecado: a preguiça. Seu maior impacto: sua desorganização. Sua raiz: uma mente que divagava com facilidade. Ele diria que era impaciência e irritação com as imperfeições do mundo. Mas era preguiça mesmo.
Uma das duas lâmpadas de trabalho de sua pia, a da direita, havia se queimado. Isso o aborrecera tanto quanto os tacos do chão de seu corredor, que começavam a se soltar. Assim tanto quanto o reparo em seu dente, que se quebrara e agora acumulava restos de comida - precisava voltar logo ao dentista. Mais uma pendência a resolver... Se não envolvia custo financeiro, proibitivo naquela fase, envolvia no mínimo uma dedicação de tempo pra lidar com as burocracias de tudo que o irritava: estacionamento, trânsito, filas, esperas, incompetências, perdas de tempo, idiotas, preguiçosos, presunçosos, e esse tipo de coisa.
Ele percebera a luz queimada logo cedo. Fechou os olhos e sublimou. Atencipou toda a perda de tempo que envolveria resolver aquela bobagem, e sublimou. Não ia adiantar se irritar por antecipação, pensou. E não pensou mais naquilo o resto do dia. Só respirou e prosseguiu. Mas a irritação o assaltou novamente quando se viu tentando acender a bancada da pia para beber água. Dessa vez suspirou e... sentiu na mente uma suspeita se formando. Será que ele não tinha uma lâmpada substituta disponível? Ele lembrou que tinha uma gaveta no armário do banheiro que dedicara a coisas sobressalentes, inclusive lâmpadas. Tudo era possível, ele achava. Mas não. Seria bom demais. Será?
Seus avós eram assim. Casados e parceiros desde o tempo do descobrimento do Brasil, haviam vivido até períodos de racionamento, logo após a segunda guerra mundial. E eram ambos militares: sua avó uma generala de sangue e alma, e seu avô por profissão. Ele, de alma, era um camponês. Alma simples e sincera, que convivia muito bem com a simplicidade espartana do Exército Brasileiro. E ambos tinham aquela organização incrível! Uma casa simples e sem luxos evidentes, mas impecável até em seus remendos. E se houvesse a necessidade de substituir uma lâmpada, lá ia meu avô com uma certa satisfação no canto do queixo, em direção a gaveta em que tinha, perfiladas, diferentes tipos de lâmpadas. Uma para cada necessidade mais comum. E o semi sorriso era pela satisfação de saber que estava preparado para aquela bobagem. E que por isso, todo o esforço diluído mas permanente de se manter organizado, havia valido a pena. E tudo isso reforçava uma crença em si mesmo.
Seu pai também era militar, mas vivia ausente, em manobras, em treinamentos. E quando estava em casa, se isolava do tumulto de uma casa com crianças. A mãe, uma bagunceira, desligada, irreverente, quase alienada.
Pra quem já teve a luz de sua casa cortada tantas vezes, se ver naquela situação era uma evidência de que estava se transformando. Ele ainda levou alguns minutos comparando especificações técnicas. Os formatos não eram exatamente iguais, mas eram compatíveis com o nicho apagado. Ainda incrédulo, mais em si do que nos dados das especificações, teve que se render ao ver sua pia novamente iluminada em todo seus esplendor! Eureka! Que golpe de sorte ter uma certinha!
Sua luz nunca fora cortada por falta de dinheiro ou acesso a ele. Todas foram por pura e absoluta esculhambação organizacional, diriam alguns. E, na preguiça de fazer o pouco nosso do dia a dia, se enfiava em situações em que era obrigado a enfrentar uma Odisséia ainda maior para conseguir religar a luz de cada roubada em que se metia. Outros poderiam dizer que era impaciência em se dedicar a essas atividadezinhas repetitivas e obrigatórias do mundo real. Seja o que for, o resultado geral não lhe era saudável. E tinha uma filha! Era preciso mudar! E isso já lhe ocorrera há bons quase cinco anos.
Nem ele sabia como, de fato, conseguira chegar até ali. Olhando sua pia iluminada novamente, pensando que aquela bobagem fora resolvida em menos de 12 horas, não podia evitar de sorrir por dentro. E de lembrar com saudade de seus avós.
Uma das duas lâmpadas de trabalho de sua pia, a da direita, havia se queimado. Isso o aborrecera tanto quanto os tacos do chão de seu corredor, que começavam a se soltar. Assim tanto quanto o reparo em seu dente, que se quebrara e agora acumulava restos de comida - precisava voltar logo ao dentista. Mais uma pendência a resolver... Se não envolvia custo financeiro, proibitivo naquela fase, envolvia no mínimo uma dedicação de tempo pra lidar com as burocracias de tudo que o irritava: estacionamento, trânsito, filas, esperas, incompetências, perdas de tempo, idiotas, preguiçosos, presunçosos, e esse tipo de coisa.
Ele percebera a luz queimada logo cedo. Fechou os olhos e sublimou. Atencipou toda a perda de tempo que envolveria resolver aquela bobagem, e sublimou. Não ia adiantar se irritar por antecipação, pensou. E não pensou mais naquilo o resto do dia. Só respirou e prosseguiu. Mas a irritação o assaltou novamente quando se viu tentando acender a bancada da pia para beber água. Dessa vez suspirou e... sentiu na mente uma suspeita se formando. Será que ele não tinha uma lâmpada substituta disponível? Ele lembrou que tinha uma gaveta no armário do banheiro que dedicara a coisas sobressalentes, inclusive lâmpadas. Tudo era possível, ele achava. Mas não. Seria bom demais. Será?
Seus avós eram assim. Casados e parceiros desde o tempo do descobrimento do Brasil, haviam vivido até períodos de racionamento, logo após a segunda guerra mundial. E eram ambos militares: sua avó uma generala de sangue e alma, e seu avô por profissão. Ele, de alma, era um camponês. Alma simples e sincera, que convivia muito bem com a simplicidade espartana do Exército Brasileiro. E ambos tinham aquela organização incrível! Uma casa simples e sem luxos evidentes, mas impecável até em seus remendos. E se houvesse a necessidade de substituir uma lâmpada, lá ia meu avô com uma certa satisfação no canto do queixo, em direção a gaveta em que tinha, perfiladas, diferentes tipos de lâmpadas. Uma para cada necessidade mais comum. E o semi sorriso era pela satisfação de saber que estava preparado para aquela bobagem. E que por isso, todo o esforço diluído mas permanente de se manter organizado, havia valido a pena. E tudo isso reforçava uma crença em si mesmo.
Seu pai também era militar, mas vivia ausente, em manobras, em treinamentos. E quando estava em casa, se isolava do tumulto de uma casa com crianças. A mãe, uma bagunceira, desligada, irreverente, quase alienada.
Pra quem já teve a luz de sua casa cortada tantas vezes, se ver naquela situação era uma evidência de que estava se transformando. Ele ainda levou alguns minutos comparando especificações técnicas. Os formatos não eram exatamente iguais, mas eram compatíveis com o nicho apagado. Ainda incrédulo, mais em si do que nos dados das especificações, teve que se render ao ver sua pia novamente iluminada em todo seus esplendor! Eureka! Que golpe de sorte ter uma certinha!
Sua luz nunca fora cortada por falta de dinheiro ou acesso a ele. Todas foram por pura e absoluta esculhambação organizacional, diriam alguns. E, na preguiça de fazer o pouco nosso do dia a dia, se enfiava em situações em que era obrigado a enfrentar uma Odisséia ainda maior para conseguir religar a luz de cada roubada em que se metia. Outros poderiam dizer que era impaciência em se dedicar a essas atividadezinhas repetitivas e obrigatórias do mundo real. Seja o que for, o resultado geral não lhe era saudável. E tinha uma filha! Era preciso mudar! E isso já lhe ocorrera há bons quase cinco anos.
Nem ele sabia como, de fato, conseguira chegar até ali. Olhando sua pia iluminada novamente, pensando que aquela bobagem fora resolvida em menos de 12 horas, não podia evitar de sorrir por dentro. E de lembrar com saudade de seus avós.
segunda-feira, 10 de abril de 2017
Volta e meia sua lembrança surgia em sua memória.
Hora uma, ou por ora outra, não vou negar.
Vinham juntas sensações esparsas de vontade, desejo e uma identidade específica.
Hora uma, hora outra.
Vontade de perguntar como está, e sentir o cheiro da brisa provocada por desejos adormecidos.
Mas refreava seu impulso. Após algumas quedas importantes, aprendera.
Nada de bom virá dali. O que passou, deve ficar passado.
E que assim seja.
Por hora.
Hora uma, ou por ora outra, não vou negar.
Vinham juntas sensações esparsas de vontade, desejo e uma identidade específica.
Hora uma, hora outra.
Vontade de perguntar como está, e sentir o cheiro da brisa provocada por desejos adormecidos.
Mas refreava seu impulso. Após algumas quedas importantes, aprendera.
Nada de bom virá dali. O que passou, deve ficar passado.
E que assim seja.
Por hora.
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