Hoje eu comemoro 39 anos, 364 dias, e várias horas. Muito em breve, amanhã mesmo, receberei o título oficial de "quarentão".
Não há como descrever o enorme abismo que separa esse título da minha noção de mim mesmo. Quarentão era meu pai, quando eu tinha apenas meus dez anos, menino, que gostava de jogar futebol, brincar de polícia e ladrão, ver desenho animado tomando iogurte com muito açúcar!, e todas essas coisas doces de infância. E meu pai era aquele pai mais antigo, embora nos tempos modernos. Um pouco distante..., sempre viajando e trabalhando, ou muito cansado, ou muito sério e compenetrado, ocupado, resolvendo algum problema importante. Um mundo bem definido de adultos e crianças, de um certo distanciamento hierárquico e coisas assim. Mas muito amoroso, sempre. Sempre que se dirigia a mim, era muito amoroso. Não que fosse de brincar muito comigo, ou de me pegar para fazer programas diferentes. Ah... mas quando o fazia, era maravilhoso! E quando se permitia, era um pai brincalhão. Me lembro de uma foto, na piscina de um clube, com meu irmão apenas 3 anos mais velho que eu, e vários amigos, todos em cima do meu pai, tentando vencê-lo, derrubá-lo, como se fossem vários Davis contra aquele Golias bonachão e simpático, mas combativo enquanto dava risadas ao arremessar cada um para longe na água. E eu, menor, olhando tudo e sorrindo, feliz, muito feliz, de ver meu pai ali, feliz, brincando com os filhos, com as crianças... Memórias boas.
Divago, não sem razão, rumo a infância, enquanto pondero sobre meus quarenta anos. Pois é da infância que trago minha noção mais marcante de mim mesmo: uma pureza de intento, uma vontade de ser bom, um amor no coração. E é por me enxergar menino que tenho dificuldades de internalizar de fato a idéia de que já vou ostentar 40 anos. Me lembro exatamente do que significa ter quarenta anos: ser muito seguro de si, sério, determinado e forte. Cioso de seus deveres, disposto aos maiores sacríficios, uma lucidez, uma falta de tempo para brincar... E tantas coisas que meu pai parecia ser, enquanto eu tinha apenas 10 anos...
E no entanto, aqui estou eu. Não sei como minha filha de 7 anos me vê. Mas o fato é que sou o mesmíssimo menino que eu era com 10 anos. Apenas com mais obrigações. Mas inseguro tantas vezes, sem saber ao certo que rumo dar a vida, sem tanta disciplina de me sacrificar tanto, com uma vontade de me esticar e ter calma e apreciar apenas a vida, os amigos, a natureza... Em verdade, talvez apenas a minha filha me veja próximo de verdade dos 40 anos. Afinal, me empenho para ser um bom pai. E, instintivamente, sou seguro, determinado, abnegado pela minha filha e em tudo que lhe diz respeito. Falo com orgulho que minha condição de maior hombridade, de maior virilidade, de maior estatura, é a paternidade. Ser pai me realizou como homem. O amor que sinto pela minha filha, é simplesmente a experiência mais arrebatadora que pode existir. E amar me define de tantas formas...
Em tudo mais, sou apenas um menino. Chegando agora, a uma certa metade do caminho.
Amo a tudo. Saboreio e me delicio com a vida. Mesmo os meus momentos de maior tristeza, depois que passam (é claro!), me encantam. De várias formas, tantos deles ajudaram a me definir cada vez mais, e me ensinaram a apreciar cada vez mais essa vida. Obrigado a tudo e a todos pela oportunidade de ter chegado até aqui. Com todas as minhas realizações e tantas frustrações. A vida me encanta.
Quero mais. Muito mais. Com calma e com pressa. Tudo misturado, e um de cada vez, para saborear.
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
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